A conquista que parecia normal

A conquista que parecia normal

"Aprendendo a reconhecer o próprio progresso."

Um profissional experiente contou que havia participado de uma reunião longa e exigente, conduzida em inglês. Estavam presentes brasileiros e pessoas da Europa, todos usando o inglês como segunda língua. O objetivo era buscar uma solução para um problema relevante, que envolvia diferentes partes e exigia uma conversa cuidadosa.

Havia tensão. Os participantes precisavam apresentar seus pontos de vista, compreender os argumentos dos demais e esclarecer dúvidas para avançar na discussão. O profissional conseguiu acompanhar a conversa e participar dela, pedindo explicações quando necessário.

Ainda assim, relatou o encontro como parte da rotina. Então, fizemos uma comparação: o que ele conseguia compreender e expressar em inglês no começo do ano? E o que havia conseguido fazer naquela reunião?

A pergunta mudou a perspectiva. A experiência não precisava ter sido perfeita para representar um avanço. Ele havia participado de uma conversa profissional complexa, em um contexto de pressão, e buscado clareza sempre que necessário. Sem essa comparação, porém, o progresso poderia passar despercebido.

Por que damos mais peso aos erros do que aos avanços?

À medida que desenvolvemos uma habilidade, aquilo que antes exigia esforço pode se tornar mais familiar. Essa mudança é positiva, mas também pode alterar nossa percepção: passamos a considerar natural algo que, não muito tempo atrás, era difícil.

Há outro motivo para darmos atenção especial aos problemas. Em um artigo de revisão publicado em 2001, os psicólogos Roy Baumeister e seus colegas analisaram pesquisas sobre a influência de experiências positivas e negativas. Os autores observaram que, em muitas situações, o impacto das experiências negativas tende a ser mais forte. Isso ajuda a entender por que um erro pode ocupar tanto espaço na memória, enquanto avanços graduais passam quase sem registro.

Mas essa tendência não acontece isoladamente. Ela é reforçada pelo ambiente em que vivemos.

O que a sociedade nos ensina sobre o que merece atenção

Vivemos imersos em informações que destacam crises, falhas e ameaças. Os noticiários dedicam mais tempo ao que deu errado do que ao que funcionou. As redes sociais expõem comparações constantes com o que os outros estão realizando, muitas vezes sem mostrar o percurso, as dificuldades ou os recuos que fizeram parte do processo. No trabalho, é comum que uma reunião de feedback se concentre nos pontos a melhorar, enquanto os avanços são mencionados de passagem ou nem aparecem.

Esse ambiente não nos convida a olhar para o que conquistamos. Pelo contrário: ele nos treina a identificar o que falta, o que falhou e o que ainda não está pronto. Não se trata de negar a importância de reconhecer problemas. Uma sociedade que ignora suas falhas não consegue corrigi-las. Mas quando o olhar para o erro se torna o único modo de avaliar a realidade, perdemos a capacidade de perceber o que também está funcionando.

O filósofo e psicólogo William James, ainda no século XIX, já chamava a atenção para o poder da atenção seletiva. Aquilo que decidimos observar, dizia ele, molda a nossa experiência do mundo. Se somos treinados a prestar atenção principalmente ao que está errado, é isso que tendemos a ver. O que escapa desse foco pode simplesmente deixar de existir para nós.

Essa lógica se aplica diretamente ao desenvolvimento pessoal e profissional. Quando alguém conclui um projeto difícil, resolve um problema complexo ou participa de uma reunião tensa em outro idioma, a sociedade ao redor raramente para e diz: "Olhe o que você conseguiu fazer." O mais provável é que a pergunta seguinte seja: "E agora, qual é o próximo passo?"

Reconhecer não é se acomodar

Comemorar uma conquista não é declarar que tudo está resolvido. Também não é usar frases positivas para encobrir uma dificuldade real. É reconhecer, com honestidade, o que foi alcançado e o que ainda precisa ser desenvolvido.

Uma pesquisa de Robert Emmons e Michael McCullough, publicada em 2003, examinou os efeitos de manter registros de aspectos pelos quais as pessoas se sentiam gratas. Os resultados indicaram benefícios em algumas medidas de bem-estar para os participantes que fizeram esse exercício. O estudo não investigou especificamente o reconhecimento de conquistas profissionais, nem permite afirmar que a prática terá o mesmo efeito para todos. Ainda assim, mostra como a atenção dedicada às experiências positivas pode fazer parte da maneira como avaliamos nossa vida.

No desenvolvimento profissional, uma reflexão semelhante pode ajudar a perceber o que aprendemos e quais recursos já conseguimos mobilizar. Não para transformar cada tarefa em uma grande vitória, mas para incluir os avanços na avaliação do nosso próprio desempenho.

Às vezes, precisamos de outro olhar

Nesse caso, o profissional não percebeu sozinho que a reunião representava um avanço. Foi preciso interromper a leitura automática de "foi só mais uma reunião" e comparar o presente com o ponto de partida.

Uma pergunta bem colocada pode ajudar a tornar visível aquilo que a rotina encobriu: "O que você consegue fazer hoje que era mais difícil antes?" Esse convite à reflexão pode vir de um professor, de um líder, de um colega ou de alguém próximo.

Com o tempo, essa prática também pode ser desenvolvida de forma mais independente. Podemos registrar situações que exigiram esforço, observar como agimos e comparar experiências semelhantes em momentos diferentes. Assim, fica mais fácil reconhecer o progresso sem deixar de identificar o que ainda precisa melhorar.

Uma visão mais abrangente do progresso

A atenção às dificuldades é necessária. Ela nos ajuda a corrigir rumos, aprender com os erros e enfrentar problemas. Mas a atenção às conquistas também importa. Ela mostra que houve movimento, aprendizagem e mudança.

Em uma cultura que valoriza mais o erro do que o avanço, reconhecer o próprio progresso é também um ato de equilíbrio. Não se trata de ignorar o que precisa ser corrigido, mas de não permitir que o olhar para as falhas apague o que já foi construído.

Às vezes, precisamos de alguém que nos ajude a enxergar o que já conquistamos. Depois, podemos aprender a fazer essa leitura por conta própria, com lucidez, sem exageros e sem diminuir o esforço que nos trouxe até aqui.

Que coisa você consegue fazer hoje que, há alguns meses, era mais difícil? Talvez valha a pena parar um instante e reconhecer essa diferença.

Para continuar a reflexão

No artigo “O Aprendizado não acontece na aula, acontece no comportamento”, reflito sobre como o comportamento também participa do processo de aprendizagem.

Já em “Por que estudar inglês durante anos nem sempre produz comunicação?”, abordo a distância entre estudar um idioma e conseguir usá-lo em situações reais.

Os dois textos ajudam a ampliar a reflexão sobre o progresso: não apenas o que aprendemos, mas como passamos a agir e a nos comunicar com o que aprendemos.

 

Que habilidade ou situação profissional hoje parece natural para você, mas já foi um desafio?

O que você reconheceu no seu próprio percurso ao ler este artigo?

Conte nos comentários sua experiência e o que mudou desde então. Deixe também seus insights sobre o artigo.

 

 

Referências

Baumeister, R. F. et al. "Bad Is Stronger Than Good". Review of General Psychology, 2001.

Emmons, R. A.; McCullough, M. E. "Counting Blessings Versus Burdens: An Experimental Investigation of Gratitude and Subjective Well-Being in Daily Life". Journal of Personality and Social Psychology, 2003.

James, W. The Principles of Psychology. Henry Holt and Company, 1890.

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Flávio
Flávio Moura
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Cassio Resende

Cassio Resende

Ótima reflexão, Flávio.
Por isso costumo, e, gosto de celebrar as pequenas conquistas, elas trazem um senso de que, sempre que tenho algo a celebrar, sei que tenho avançado em algo em minha trajetória.
★★★★★DIA 05.11.26 14h45RESPONDER
Flávio Moura

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Flávio Moura

Flávio Moura

Fantástica contribuição Cassio, isso mesmo, parabéns! Nessa loucura que vivemos hoje, mostrar essa maturidade nos ajuda muito em vários aspectos.


Obrigado pela contribuição.

★★★★★DIA 06.11.26 16h52RESPONDER
N/A

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Rogerio Godoy Princiotti

Rogerio Godoy Princiotti

Excelente reflexão!
Muitas vezes, damos mais atenção aos nossos erros e dificuldades do que às nossas conquistas. E, à medida que evoluímos, passamos a considerar natural aquilo que antes era um grande desafio. Por isso, é tão importante olhar para trás de vez em quando e reconhecer o quanto já avançamos. Valorizar nossas conquistas não significa deixar de buscar melhorias, mas reconhecer nossa evolução e nos motivar a continuar.

Um pouco da minha experiência

Reconhecendo o caminho e todo o processo: lembrei que um dia escrevi em postit várias palavras em inglês como BECOME-BELONG etc. olhava para estas palavras fixadas e pensava está muito difícil, procurava por métodos para aprender, depois outro desafio como falar isso?
Depois de dias ouvindo pequenos vídeos sem entender quase nada, um dia depois de fixar várias palavras - Vocabulário mais rico - observei que foi uma evolução, outro dia sem perceber consegui enter um vídeo do youtube sem ver legenda, mas a pergunta fica o quanto evolui?, nem eu sei?.... mas sempre faço comparações com outros e sei que ainda o estou no começo do percurso, curto cada etapa, hoje consigo rir com muitas piadas em Inglês, entendo as notícias dos jornais, é uma sensação excelente poder entender um idioma, conexão com o mundo, isso serve de combustível para avançar cada dia um pouquinho.
Don't give up.
Parabéns pelo artigo e pela reflexão!
★★★★★DIA 04.11.26 17h43RESPONDER
Flávio Moura

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Flávio Moura

Flávio Moura

Rogério, sempre muito contributivo. Suas palavras são mais do que uma contribuição, são uma síntese do artigo com um testemunho. Parabéns pela caminhada e sua maturidade. 

★★★★★DIA 04.11.26 18h52RESPONDER
N/A

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Juliana Aline Boava

Juliana Aline Boava

Que reflexão importante!!! A rotina realmente nos faz esquecer o quanto já avançamos... Reconhecer o progresso, sem deixar de olhar para o que falta, faz toda a diferença. Obrigada por compartilhar!
★★★★★DIA 04.11.26 17h32RESPONDER
Flávio Moura

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Flávio Moura

Flávio Moura

Exatamente Juliana e, ainda mais na sociedade que vivemos hoje em que o negativismo dá Ibope e muitos likes. Obrigado pela sua contribuição.

★★★★★DIA 04.11.26 18h48RESPONDER
N/A

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